quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A ARTE SACRA E A PARTICIPAÇÃO NO PERFEITO


(1ª parte)

Toda arte é fruto de uma época e colabora para criar o espírito desta época. Circulo singular, de modo algum vicioso, que revela a forma elevadíssima de implicação que se dá entre as realidades que tecem a trama da vida do homem. Devido a esta correlação, o estudo das vicissitudes da arte não constitui um mero trabalho erudito, mas uma grande tarefa, urgente para todo aquele que se considerar chamado para a ação social mais profunda.
Hoje nos encontramos, evidentemente, numa época de crise. Para que esta não seja um prelúdio do caos, mas um trauma de nascimento, depende de nós, da orientação que dermos à arte através da solução que oferecermos aos grandes temas que conferem a nossa vida espiritual seu impulso e seu sentido mais profundo. Passemos esquematicamente em revista, à guisa de exemplo, alguns destes temas.
A arte sacra contemporânea manifesta com grande nitidez que o decisivo em todo processo crtatlvo é o mundo espiritual que se encarna em cada obra e conjunto de obras. No capítulo 7 será exposto que toda obra de arte completa está integrada por sete estratos ou níveis de realidade. O sexto estrato é dado pelo aspecto da vida humana que se exprime na obra. Tal aspecto ou "mundo" não se deduz à representação de fatos, figuras ou acontecimentos. Essa representação - estrato terceiro da obra - pode, em alguns casos, não ocorrer. Nas obras não figurativas, porém, há de transluzir, inevitavelmente, um mundo peculiar: a forma comunitária de oração no canto gregoriano, o estilo galante nas obras clavecinistas do século XVIII, a adesão à natureza num jardim inglês...O estilo próprio da arte sacra atual corresponde a influências muito diferentes, e entre elas destaca-se a volta ás origens da piedade cristã. O mundo simples e profundo de alguns fiéis que se reúnem para fundar comunidade e criar um clima de oração e de amor mútuo é plasmado arquitetonicamente nas novas igrejas. Dai por que sua meta não consiste em conseguir formas belas ou espaços grandiosos, mas em oferecer á comunidade crente âmbitos que sejam a manifestação luminosa de sua vida em unidade.
COMO ENTRAR EM RELAÇÃO DE PRESENÇA COM O TRANSCENDENTE
Atualmente sente-se de modo Intenso a necessidade da abertura comunitária, a fundação de âmbitos de encontro. Mas o que significa fundar um âmbito de presença? A arte sacra atual acaso favorece a instauração de âmbitos religiosos de presença? Hoje sublinha-se com insistência a importância dos ambientes, da Stimmung. Mas poucos se preocupam em deixar claro a necessidade de não confundir a autêntica transcendência religiosa - que é a passagem a um âmbito de presença comprometido e transfigurante - com a transcendência fictícia que anda aliada com a falsa infinitude do mero estar no vazio do objetivo-figurativo.
Não há nada mais urgente hoje em dia na filosofia e na arte do que adivinhar o valor do não figurativo, que não se reduz a mera in-objetividade. Decisiva e sutil tarefa na qual, sem dúvida, os grandes místicos espanhóis podem nos indicar o caminho a seguir. São João da Cruz fala da noite - a do sentido e a do espírito - em poesias exuberantes. A Espanha, terra de místicos e ascetas, produziu uma plêiade de grandes pintores e escultores sacros. Estamos claramente diante de um problema de Intuição, não de despojo; problema de encher o sensível de conteúdo e conseguir uma visão de longo alcance.
A ARTE SACRA E A EXPRESSÃO DO PERFEITO
A arte sacra nasce da convivência comprometida e leal com a grandeza do divino, não da consciência do nada do terreno. Brota de uma plenitude, não do depauperamento de quem adota a todo transe credos artísticos arbitrários e violentos.
O Importante, consequentemente, é estar a serviço do valioso, mergulhar na riqueza do dogma vivido liturgicamente - de modo sensível e metassensível igualmente - e expressar Isso em atitude de abertura, indo mais ao originário-profundo-comunicável do que ao original-egoísta-fechado. A arte de hoje é em grande parte incomunicável devido à pretensão obsessiva de originalidade, não devido à falta de preparação e sensibilidade por parte do povo. Quando se destaca o valor do objetivo frente ao subjetivo, estamos certos se tentarmos sublinhar a fecundidade do profundo-comunicável e a esterilidade da retração egoísta daquele que nada contra a corrente das forças fecundantes do amor, força de gravitação entitativa que Paul Claudel denominou engenhosamente "co-naissance des choses". O objetivo na liturgia não é relevante por ser não-subjetivo, mas por encerrar riqueza entitativa muito alta.É perigosa no homem atual sua inclinação para o superficial e sua tendência a exaltar certas formas banais de objetivismo, que se reduzem às camadas do real mais à mão, menos densas, menos aptas para nutrir o espírito de um ser, como o homem, nascido para se encontrar com os valores. Por isso a orientação atual para o comunitário é, rigorosamente, índice de tensão para o profundo valioso, já que os valores são iluminados na mistura de âmbitos.De modo semelhante, a exigência contemporânea de pureza e sobriedade está impelida pela intuição do profundo, que leva consigo altas exigências de clareza e precisão. O que conta não é, portanto, a nudez em si mesma, mas enquanto é veículo de plenitude; de forma análoga, o silêncio não se faz valer enquanto mera falta de palavras, mas como sinal da profundidade inexaurível da palavra profunda.
1.CARACTERÍSTICAS DA SENSIBILIDADE ATUAL
a) Essencialismo
Com este nome são designadas, entre outras, as duas atitudes seguintes:
- A atitude daqueles que tentam glorificar a atividade criadora mesma às custas da obra realizada. Nesta linha de pensamento, Merleau-Ponty afirma que o achado do absoluto paralisa a busca metafisica, e Karl Jaspers sustenta que o encontro com a transcendência entendida em sentido vigorosamente realista paralisa o salto para o in-objetivo em que consiste a atividade filosófica entendida como ato-de-transcender.
- A atitude dos que se esforçam em prescindir do acessório para destacar o essencial.
Na altura em que nos encontramos não pode ser negada a urgência de buscar quintessências e não miscelâneas. Mas esta busca deve estar ligada pela convicção de que o simples não é o pobre, mas aquilo que tem poder de domínio sobre a diversidade amorfa do múltiplo, e que o decisivo não é o esforço da busca, mas a realidade que constitui a meta e, portanto, o impulso de buscar.
b) Sinceridade
O amor e o respeito sempre crescentes atualmente pela matéria se manifestam na fidelidade aos diferentes materiais, que Já não podem ser divididos em "nobres" e "ignóbeis". A matéria de per si está grávida da forma (Merleau-Ponty). Daí o caráter espúrio e inartístico que apresenta toda adulteração dos materiais, por ser um atentado contra o direito de a matéria mostrar seu poder expressivo peculiar. Nunca se valorizará suficientemente esta vontade de fidelidade ás exigências legítimas do real.
c) Funcionalismo
É mérito dos tempos modernos ter intuído de maneira certa a proximidade misteriosa em que se acham o belo e o funcionalmente perfeito no campo insondável da vida, inclusive no campo da técnica, cujas formas, na medida em que são aperfeiçoadas, aproximam-se sem querer das formas vitais. Quando o funcionalismo procede de dentro para fora, endogenamente, a perfeição funcional está acompanhada pela beleza. Não costuma ser assim quando se elabora um artefato visando a consecução de um determinado fim.Ao por a preocupação funcionalista em primeiro plano, afinou-se a sensibilidade para ver o encanto sereno do simples, do preciso, do eficaz e oportuno. Sem reduzir o estético ao funcional (ao útil na ordem funcional), entreviu-se um vinculo fecundo entre a obra bem feita e a obra bela vínculo que revela as profundas e misteriosas raízes ontológicas da beleza.É da maior importância neste contexto compreender a fundo o conceito de função. Não se trata da aplicação prática de um esquema prévio, mas do serviço a algo profundo, algo muito profundo no mundo do real que toma corpo e se revela na obra criada. O reto funcionalismo não radica em construir sob os impulsos do frio cálculo racional, mas em adivinhar a alma oculta das coisas e encarná-la num meio expressivo.As esplêndidas fotografias de Andrés Feininger - publicadas em sua obra Anatomia de la Naturaleza - mostram a beleza de esqueletos de animais cuja perfeição técnica assombra os especialistas em resistência de materiais. Mas não esqueçamos que em tais animais está latente um princípio vital que orienta e rege todo o processo constitutivo de seu ser.
"Sem dúvida não é devido a um acaso o lato de que os melhores resultados da arte modema religiosa coincidem com aquelas obras em cuja preparação e realização esteve mais presente a atenção a sua 'função' concreta... Foram os olhos puros que conseguiram uma arte de hoje na qual as formas voltaram a resplandecer, não porém ao serviço de uma teoria paradoxalmente tão antiartística como a da 'arte pela arte', mas em verdadeira liberdade. Parece-me que a melhor arte de nosso tempo é assim porque foi fiel a esta estrutura da realidade artística. E sua fidelidade consistiu em ter conjugado a essência da arte, que consiste na forma, com a essência da forma, que consiste na expressão. É por isso que a arte contemporânea, contra o que alguns se empenharam em manter teimosamente, é uma arte essenciaImente 'aberta', e aberta, de fato, a uma transcendência possível, e, em potência, a uma transcendência real" (cf. F. Pérez Gutiérrez. La indignidcd en el arte sacro. Madri, Cristiandad, 1961, p. 138, 111).
in : QUINTÁS, Alfonso López. Estética, Petrópolis, Ed. Vozes, 1992 - pág 99 a 107.
-------------------- próxima parte será publicada no domingo (07/10)

Um comentário:

Pe. Vítor Magalhães disse...

«Toda arte é fruto de uma época e colabora para criar o espírito desta época». Gostei deste blog! Que comentário faz à Igreja da Santíssima Trindade em Fátima, cf. www.vm11.blogspot.com