segunda-feira, 1 de abril de 2013

São Carlo Borromeo e a Arquitetura Religiosa


Caros leitores, após 2 anos sem postagens, estou de volta e feliz por ver que já tivemos mais de 20 mil acessos. Para recomeçar eu gostaria de falar de um grande santo chamado Carlo Borromeo e sua enorme contribuição para a Arquitetura Religiosa.
Borromeo foi cardeal e arcebispo de Milão e participou ativamente no Concílio de Trento. Ao retornar para Milão escreveu um documento intitulado Instructiones Fabricae Et Supellectilis Ecclesiasticae. Foi feito inicialmente para a sua arquidiocese e objetivava oferecer um conjunto de diretrizes para orientar a construção de igrejas conforme os preceitos tridentinos. Contudo, este ganhou repercussão em todo o mundo ocidental, sendo reeditado várias vezes desde 1577 até 1952.
Ele apresenta o documento em trinta e três capítulos. Os trinta primeiros, com foco no projeto das igrejas, e incluem também informações sobre catedrais. Estes capítulos abordam: a implantação da igreja, o tamanho e as características do terreno, o desenho da fachada, das portas, das janelas, a organização do interior, o batistério, o campanário, a sacristia, o mobiliário e a decoração. Os três últimos capítulos tratam dos projetos de oratórios e igrejas em conventos e mosteiros.
Tais instruções passaram a estar contidas nos livros e documentos tridentinos associados ao rito católico. No Brasil, elas serviram como uma das referências para a elaboração das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, publicado em 1707.
            Segundo Blunt (2001, p.168), São Carlo Borromeo “é o único autor a aplicar o decreto tridentino à arquitetura”. Estas Instruções, traduzindo o espírito do Concílio de Trento, tiveram grande importância ao criar certa “padronização” na construção de igrejas em todo o mundo católico.

A seguir transcrevo alguns trechos deste documento:

“...É particularmente importante que a localização da igreja, onde quer que seja construída, seja no alto. Se a topografia é tal que não existe uma parte mais elevada, então a igreja deve ser construída sobre uma base, de modo que sejam levantados sobre a planície e o piso seja alcançado por meio de três ou cinco degraus. [...] Que ela se afaste de lugares úmidos, de todos os tipos de sujeira, estábulos, baias de ovinos, tabernas, forjas, lojas e mercados de todos os tipos...”

“...É bom que alguma instrução deva ser dada aqui sobre o assunto do tabernáculo, pois um decreto provincial tornou obrigatória a colocação do mesmo no altar-mor. Nas mais importantes igrejas, sempre que possível, deve ser feito de prata ou bronze, deve ser dourado ou de mármore precioso [...] Além disso, o tabernáculo, definido no altar, terá uma base estável decorada, devidamente executado, com estátuas de anjos ou outro suporte decorado com ornamentos religiosos, será fixado firmemente no lugar sólido. Além disso, será equipado com uma chave...”

“...O coro, como é óbvio a partir de edifícios antigos, e os regulamentos de disciplina da igreja, deve ser separado da parte da igreja onde as pessoas permanecem e cercado por grades. [...] Ele deve, como o arquiteto entender, ser largo e comprido, se o espaço permitir, na forma de um semicírculo ou outra forma, de acordo com o plano da capela ou da igreja, correspondendo assim perfeitamente, inclusive no seu tamanho e ornamentação, à dignidade solene da igreja e o número do clero...”

“...Primeiro de tudo o confessionário será feito inteiramente de painéis de madeira trabalhada. Estes serão colocados em ambos os lados, nas costas e vai cobrir a parte superior, enquanto ele será totalmente aberto na parte da frente, e não deve ser fechada de forma alguma. Todavia, pode ter, sobretudo nas igrejas mais freqüentadas, uma porta de treliça ou um portão de madeira [...] Um pequeno braço de madeira será fixado na parte interna do painel entre o confessor e penitente, em que o confessor poderá descansar o braço. Será como uma barra transversal, de modo que possa ser abaixado e levantado, conforme desejado.[...] Uma pequena placa ligeiramente inclinada será definida na extremidade superior. Sobre isso, o penitente pode confiar suas mãos juntas durante a confissão de joelhos...”

sábado, 12 de junho de 2010

Apontamentos sobre o diálogo com os arquitetos

“É necessário começar uma viagem, que será longa, para tentar tecer de novo o diálogo, depois do divórcio que houve com os artistas. (…) Isto acontece já na arquitetura, com igrejas feitas por grandes arquitetos - algumas mesmo belas igrejas. Inicialmente, os fiéis têm perante elas alguma estranheza, mas depois, progressivamente, entram e percebem a beleza de uma igreja feita por Álvaro Siza, Richard Meier, Mario Botta, Renzo Piano, Tadao Ando.” (D. Gianfranco Ravasi, 2008)
Depois de um parêntesis de quase três décadas, assistiu-se no final do século XX a um renascente interesse por parte dos arquitetos pela arquitetura religiosa em geral. Num registo que tem à cabeça a elite arquitetónica mediática internacional, foram, de facto, vários os projetos que trouxeram de novo esta tipologia para as páginas dos jornais e das revistas da especialidade: nas catedrais, e depois da de Evry, França, pelo suíço Mario Botta, ou da de Manágua, Nicarágua, pelo mexicano Ricardo Legorreta, Rafael Moneo terminou a de Los Angeles, e Santiago Calatrava apresentou uma proposta para a conclusão da de São João o Divino, em Nova Iorque.


Rafael Moneo (Los Angeles)
Mais recentemente, Renzo Piano – o arquiteto do Centro Pompidou em Paris – finalizou a grandiosa obra do santuário do Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, Itália, com capacidade para 60 mil pessoas, enquanto que em Fátima se inaugurava a igreja da Santíssima Trindade, com 9000 lugares cobertos, da autoria do arquiteto Alexandros Tombazis. Nos mosteiros, destacou-se o cisterciense de Novy Dvur, na República Checa, pelo minimalista britânico John Pawson.


Rafael Moneo (Los Angeles)
Menor dimensão não significou menor produção, tendo sido registadas capelas como a de Santo Inácio, na Universidade de Seattle, de Steven Holl, a de São Bento em Sumvitg, Suiça, de Peter Zumthor, as realizadas por Mario Botta em Ticino, Itália, e as do japonês Tadao Ando, com uma poética inspirada na obra de Kaija e Heikki Siren.
Mas foi na categoria igreja paroquial que surgiram as obras que maior destaque mediático alcançaram: em primeiro lugar, a galardoada igreja de Santa Maria, em Marco de Canavezes, de Siza Vieira, seguida da igreja de Deus Pai Misericordioso, em Roma, de Richard Meier, vencedora do concurso internacional “igreja do ano 2000” promovido pela Diocese de Roma.


Richard Meier (Roma)
Se do ponto de vista arquitetónico, esta vasta produção se apresenta deveras estimulante, por outro lado, levanta questões quanto à tendência atual para que a avaliação da obra religiosa se limite a aspetos formais e construtivos, num esteticismo claramente insuficiente, uma vez que os construtores de igrejas devem procurar não apenas a beleza da forma, mas também a verdade do Espírito.


Richard Meier (Roma)
A chave da arquitetura religiosa é que, como nota Gio Ponti, “religious architecture is not a matter of architecture but a matter of religion”, ou seja, uma igreja não é para ser apenas bela, mas a sua forma deve ser consequência do espírito que a anima e lhe dá razão de ser, o que lhe confere duas dimensões fundamentais, distintas mas complementares: uma interna, enquanto instrumento ao serviço da comunidade crente para sua reunião e louvor a Deus; e outra externa, ao ser símbolo e reflexo de uma mensagem que a Igreja é chamada a transmitir e apresentar ao mundo. Destas duas, a primeira terá sempre a prioridade.


Renzo Piano (San Giovanni Rotondo)
Todo o processo de construção de uma igreja deve, por conseguinte, refletir desde o início sobre as características próprias do cristianismo no começo do terceiro milénio: uma Igreja ainda a assimilar um Concílio Ecuménico ao mesmo tempo que tende para um menor número de fiéis, mas em que estes revelam uma maior e mais profunda experiência de Deus, uma fé mais adulta e esclarecida, um maior conhecimento teológico e bíblico, e uma eclesiologia fundada na dignidade e unidade recebidas no batismo, conforme o espírito Neo-Testamentário e a tradição patrística.


Renzo Piano (San Giovanni Rotondo)
As igrejas antes de serem formas concretas, são necessidades vivenciais. Não é por acaso que o mesmo termo que é usado para designar a assembleia que se reúne – Igreja / Ecclesia – designa o lugar da sua reunião, e este espaço deve ser expressão da fé cristã da comunidade, uma vez que a organização da arquitetura é um reflexo direto não só de uma determinada conceção de Igreja, mas também de uma eclesiologia precisa.


Steven Holl (Seattle)
Ou seja, as igrejas devem começar a ser construídas primeiramente pelo seu verdadeiro interior: a comunidade e sua fé cristã, e a arquitetura religiosa do século XXI só será justificada se se afirmar como um meio para os cristãos crescerem na fé que professam e na caridade que são chamados a viver. É este o sentido de um conhecido esquema desenhado pelo arquiteto Rudolf Schwarz: o mais importante não é que as igrejas tenham um aspecto moderno, mas que o sejam espiritualmente no seu interior, ao permitirem um aggiornamento da Igreja reunida. (Aggiornamento tendo sido uma palavra-chave do Concílio Vaticano II)


Steven Holl (Seattle)
É preferível uma igreja antiga, onde se possa desenvolver uma assembleia litúrgica eucarística em conformidade com o espírito do Evangelho, do que uma outra que se reconheça como contemporânea, mas que esteja organizada segundo modelos que dificultam a vivência cristã da comunidade.
A fé cristã é uma fé assente em relações e encontros, do homem consigo mesmo e com os outros homens e de todos com Deus. Crescer e aprofundar estas relações num sentido contrário ao da organização de um espaço é difícil, senão mesmo impossível.


Rudolf Schwarz
Se pensarmos que o maior esforço e a maior atenção dos arquitetos nos últimos tempos se dirigiu quase exclusivamente para projetar envolvimentos arquitetónicos mais ou menos sagrados, místicos, espirituais, ou então celebrativos, ideológicos ou artísticos, com formas ascendentes, tratamento poético da luz, vãos, cúpulas, decorações mais ou menos abstratas, arrojos estruturais, ou pobreza de materiais, etc., deixando sempre para depois a organização do espaço litúrgico, damo-nos conta de que os resultados têm sido sempre insatisfatórios e às vezes, um fracasso completo” (1).


Siza Vieira (Marco de Canavezes)
Não surpreende, portanto, que a muito fotograda igreja de Marco de Canavezes – peça arquitetónica de grande qualidade – tenha sido classificada por Nuno Teotónio Pereira como “um retrocesso absoluto” e “um voltar atrás” enquanto Igreja (2).
Não quer isto dizer que o estilo e a forma arquitetónica não sejam importantes. O próprio Segundo Concílio do Vaticano, na constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia, defende que a Igreja deve promover a arte do seu tempo, demonstrando confiança no tempo presente e nos múltiplos meios que a criatividade contemporânea tem à sua disposição.


Siza Vieira (Marco de Canavezes)
Neste sentido, a igreja de Marco de Canavezes é um contributo importante para a arquitetura religiosa, e entende-se que seja considerada em Portugal como no estrangeiro, ponto de passagem incontornável para o(s) construtor(es) de igreja(s). E é sob este ponto de vista que se percebem os vários prémios internacionais que lhe foram atribuídos - Prémio IberFAD de Arquitetura, em 1998, pelo Fomento de las Artes Decorativas de Barcelona e Prémio Internacional de Arquitetura Sacra, em 2000, pela Fundação Frate Sole -, bem como o destaque recebido no 4º Congresso Internacional Architettura e Liturgia nel Novecento, realizado em Veneza em 2006.


Peter Eisenman (Roma)
Mas a vida cristã que vivemos, numa realidade cultural, social e tecnológica totalmente nova e pela primeira vez verdadeiramente global, ao mesmo tempo que se enraíza e alicerça nas suas origens, deverá dar forma a edifícios consentâneos, sob o risco de se constituírem apenas como contentores de rituais e palavras vazias.
A proposta desconstrutivista de Peter Eisemann para a igreja do ano 2000, em Roma, é um exemplo claro. Ao separar a assembleia do presbitério em edifícios distintos, onde, num, a primeira assiste em ecrãs ao que outros realizam isolados, denota um total desconhecimento do espírito do corpo místico de Cristo. Paralelamente, as suas formas agitadas, e pelo menos aparentemente desordenadas, retratam bem o estado da sociedade e do mundo, mas não o lugar de paz, harmonia e unidade a que a Igreja é chamada a ser hoje de um modo especial. Não vale tudo ou qualquer coisa, portanto.


Peter Eisenman (Roma)
Regressar simplesmente à fórmula “as obras aos grandes homens”, como dizia o P. Couturier, depositando-se a esperança da construção de uma igreja unicamente na excelência da estética arquitetónica, sem o envolvimento participado da comunidade e o entendimento profundo do espírito que vivifica na Igreja, resultará certamente em belas obras de arquitetura, mas não nas igrejas que a Igreja do século XXI necessita.

(1) Bergamo, Maurizio, “Espacios celebrativos”, Ediciones EGA S.L., Bilbau, 1997.
(2) Nuno T. Pereira, entrevistado por Ana Vaz Milheiro e Isabel Salema, in Mil Folhas, Jornal Público, Sábado, 26.06.2004.
Arq.º João Alves da Cunha
© SNPC | 20.02.2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A mesa da Palavra

Valor e sentido da Palavra de Deus na Liturgia

O povo católico de tradição romana tem grande dificuldade em perceber o profundo sentido e valor da palavra de Deus na Liturgia.

Normalmente, ainda damos muito pouca importância a ela. Compreende-se. É o resultado de uma herança de mais de mil anos, vinda de uma prática litúrgica em que, nas celebrações, a Palavra quase não contava.

Ela era lida, sim, na missa. Mas só pelo padre, em voz baixa (apenas para ele!), em latim, lá longe no altar, e de costas para o povo. O povo não ouvia nada do que o padre lia. Não ti

nha contato, portanto, com a Palavra naquele momento. Isso durou praticamente todo o segundo milênio, até o Concílio Vaticano II (há 40 anos atrás), que recupera a tradição do primeiro milênio, que dava à Palavra um valor tão grande quanto à Eucaristia.

A Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a Liturgia, do citado Concílio, resgata para nós a consciência antiga da presença viva de Cristo na assembléia dos cristãos, de modo particular “pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja” (SC 7). É uma verdade provinda da grande tradição dos antigos Padres da Igreja que freqüentemente equiparam a palavra de Deus à encarnação e à Eucaristia.

Eles estão convencidos que a palavra da Sagrada Escritura é a presença de Deus entre nós, e que especialmente a palavra dos evangelhos, aceita pela fé, é a presença do Verbo encarnado. Conseqüentemente, o respeito que se tinha pela Palavra era tão grande que a Sagrada Escritura, especialmente os evangelhos, em muitos lugares era guardada num cofre semelhante ao sacrário. Na ábside das igrejas havia dois “sacrários”, um à direita e outro à esquerda, um para guardar a Eucaristia e o outro para guardar o livro da Palavra.

Daí se entende o que o Concílio Vaticano II afirmou na Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Revelação Divina. Diz ele: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como sempre venerou o próprio Corpo do Senhor, porque, de fato, principalmente na Sagrada Liturgia, não cessa de tomar e entregar aos fiéis o pão da vida, da mesa, tanto da palavra de Deus como do corpo de Cristo” (DV 21).

Como se vê, as duas mesas são fontes de alimento para as pessoas que delas se aproximam. Dessa forma, a palavra de Deus é tão venerável quanto o Corpo Eucarístico de Jesus Cristo. Comungamos da mesa da Palavra, assim como comungamos da mesa da Eucaristia.

A mesa da Palavra: sua dignidade e seu uso na Liturgia

Assim sendo, se damos tanta importância ao altar da Eucaristia, por que não dar semelhante destaque ao espaço de onde a Palavra é proclamada? De fato, com o Vaticano II a Igreja acordou também para este detalhe. E a Instrução Geral sobre o Missal Romano acaba, então, nos lembrando que “a dignidade da palavra de Deus requer na igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (n. 309).

Trata-se da mesa da Palavra, ou ambão (do grego “anabaino”, subir, porque costuma estar em posição elevada, de onde Deus fala). Como já dissemos, em outra ocasião, Cristo é o protagonista da ação litúrgica, também no ambão, o espaço reservado para a proclamação da palavra de Deus. Isto significa que este espaço possui, também ele, um sentido simbólico-sacramental de fundamental importância. Ele nos evoca a presença viva do Senhor falando para o seu povo. A Instrução Geral fala de um “lugar condigno”.

A palavra “condigno” tem a ver com “proporcional ao mérito, ao valor”. Tem a ver com “devido, merecido”. Assim, pois, a palavra de Deus, por causa da sua dignidade (que é imensa!), requer naturalmente um espaço à altura desta dignidade, de onde ela é proclamada para toda a assembléia. E mais: um espaço para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra. Pois é dali que o Deus vivo está se comunicando com seu povo através da proclamação das divinas Escrituras.


A Igreja, hoje consciente do sentido profundo e da importância deste espaço sagrado de nossas igrejas, nos dá então a seguinte orientação: “De modo geral, convém que esse lugar seja uma estrutura estável e não uma simples estante móvel. O ambão seja disposto de tal modo em relação à forma da igreja que os ministros ordenados e os leitores possam ser vistos e ouvidos facilmente pelos fiéis” (ibid.). Interessante este detalhe: a mesa da Palavra seja disposta dentro da igreja de tal maneira “que os ministros ordenados e os leitores possam ser vistos e ouvidos com facilidade por todos”.

Por quê? Porque é um “direito” que o povo tem de ver e ouvir facilmente a voz de Deus que nos fala pela Palavra proclamada (cf. SC 14). É o que está acontecendo na maioria das nossas igrejas. As comunidades realmente estão caprichando, estão se esforçando ao máximo para fazer do ambão um verdadeiro monumento, ou melhor, um memorial que nos evoca a presença viva do Senhor falando para o seu povo. Para tanto, servem-se da ajuda até mesmo de artistas e pessoas especializadas em Liturgia.

Tem igrejas em que dá gosto ouvir a palavra de Deus na Liturgia, não só porque as pessoas lêem bem, mas porque o próprio lugar de onde se lê é inspirador pela sua beleza artística. E por falar em beleza artística, uma pequena sugestão aos desavisados: se a mesa da Palavra é construída com arte e ela aparece naturalmente bela (isto é, por si só já evoca o mistério da presença do Senhor), por favor, não encobrir esta maravilha com um pano, por mais bonitos que sejam os seus bordados!

Se o ambão já é belo por si, o bom senso sugere não cobrir este espaço sagrado com pretensos enfeites. Deixe a mesa da Palavra aparecer do jeito que ela é, bela como ela só! Mas tem outra coisa ainda em torno da dignidade desta mesa. Diz a Instrução Geral sobre o Missal Romano: “Do ambão são proferidas somente as leituras, o salmo responsorial e o precônio pascal; também se podem proferir a homilia e as intenções da oração universal ou oração dos fiéis.

A dignidade do ambão exige que a ele suba somente o ministro da palavra” (ibid.). A oração dos fiéis, no fundo, é a Palavra que, uma vez caída no coração da assembléia, se transforma num grito para Deus. É a Palavra transformada em súplica ao Senhor. Por isso se sugere que ela seja feita também do ambão. O mais (avisos, comentários etc.) seja feito de outro lugar. Precisamente para garantir e enfatizar a dignidade do ambão.

Enfim, ressaltando de novo a dignidade que tem a mesa da Palavra, a Igreja ainda sugere o seguinte:

“Convém que o novo ambão seja abençoado antes de ser destinado ao uso litúrgico conforme o rito proposto no Ritual Romano” (ibid.). Prevê-se, portanto, até mesmo uma bênção especial para o ambão, antes de ser usado na Liturgia. Parabéns às comunidades que já têm o seu ambão instalado e trabalhado à altura da dignidade da Palavra de Deus. E Deus ilumine as comunidades que ainda estão buscando uma forma de valorizar, da melhor maneira possível, o lugar de onde Deus fala para o seu povo.

por José Ariovaldo da Silva, ofm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Encontro sobre Arquitetura e Arte Sacra - SP

Páteo do Collegio abriga encontro sobre Arquitetura e Arte Sacra
São Paulo, acontece 26 de setembro de 2009

No sábado dia 26 de setembro, o auditório da igreja do Páteo do Collegio sediará o 2º Encontro Paulista de Arquitetura e Arte Sacra. O evento, organizado por um grupo de teólogos, arquitetos e artistas plásticos, tem a pretensão de consolidar um espaço permanente para a troca de idéias e para a discussão sobre os caminhos e significados do sagrado na arquitetura e na arte contemporâneas.

“Esse encontro quer abrir uma nova perspectiva de diálogo com a academia e com os profissionais da área, visando o incremento dos espaços destinados ao uso religioso” - disse Gabriel Frade, autor do livro “Arquitetura Sagrada no Brasil” e um dos organizadores do evento.

No dia, além da troca de idéias entre os participantes, está prevista uma palestra sobre as relações da Palavra de Deus e o seu "locus" no espaço litúrgico católico.

As vagas são limitadas e as inscrições deverão ser feitas com o arquiteto Alfredo Pissinato através de e-mail:arqpissinato@gmail.com

Será cobrada uma taxa simbólica de R$ 5,00 por pessoa.

Data e horário
Sábado, 26 de setembro, das 14h às 15h

Local
Páteo do collegio
Praça Páteo do Collegio, 02 - Centro
São Paulo SP
E-mail:
arqpissinato@gmail.com

Via portal Vitruvius

Alfredo P i s s i n a t o Jr
arqpissinato@gmail.com

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sentido Teológico-litúrgico do Altar Cristão


CRISTO É O ALTAR VERDADEIRO

Sabemos que os primeiros escritores cristãos, chamados Padres da Igreja, depois de terem lido, ouvido e meditado profundamente a Palavra de Deus, não tiveram nenhuma dúvida em afirmar que Cristo é a vítima, o sacerdote, o altar de seu sacrifício. Aliás, já a própria Palavra de Deus nos apresenta Cristo como o Cordeiro imolado (Ap 5,6), o Sacerdote supremo, o Altar vivo do Templo celeste (cf. Hb 4,14; 13,10). Portanto, Cristo, Cabeça e Mestre de todos nós, é o verdadeiro altar.

EM CRISTO SOMOS TAMBÉM ALTAR

Isto significa que, sendo Cristo a Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, logicamente seus membros e discípulos, os cristãos e as cristãs, podem ser considerados também, em Cristo, como outros tantos altares. Altares espirituais, nos quais se oferece a Deus o sacrifício de uma vida santa. Quer dizer: sobre o altar de nós mesmos, “sacrificamos” a nossa vida em favor dos nossos irmãos e irmãs, sobretudo os mais pobres. Como fez Jesus! Os próprios antigos Padres da Igreja sugerem toda essa compreensão de altar.

Santo Inácio de Antioquia († 117), ao ser levado a Roma para ser martirizado, fez o seguinte pedido: “Não me dêem nada mais do que ser imolado a Deus, enquanto o altar ainda estiver preparado”. São Policarpo († 156), ao exortar as viúvas a levarem uma vida santa, diz que elas “são altar de Deus”. E vejam o que escreve o papa São Gregório Magno (590-604): “Que é o altar de Deus? Não é o espírito dos que vivem no bem?...

É muito certo, pois, que se chame de altar o coração (dos justos)”. Ou também, usando outra imagem, a partir do escritor cristão Orígenes († 254), a Igreja hoje afirma: “Os fiéis que, entregues à oração, oferecem preces a Deus e imolam vítimas de súplicas, são pedras vivas com que o Senhor Jesus constrói o altar da Igreja” (cf. Ritual da dedicação de altar, n.º 2).

O ALTAR, MESA DO SACRIFÍCIO E DO BANQUETE PASCAL

Porque Cristo é o altar verdadeiro e, em Cristo, também nós somos altar, é natural que a mesa sobre a qual oferecemos a Deus o sacrifício de Cristo (e, em Cristo, o nosso sacrifício), e em torno da qual participamos do banquete pascal que nos é dado pelo Senhor, venha a ser chamada também de altar.

Neste sentido, a Igreja hoje nos ensina:

“Cristo Senhor, pelo memorial do sacrifício que, na ara (altar) da cruz, iria oferecer ao Pai, instituindo-o sob a figura de banquete sacrificial, santificou a mesa, em torno da qual os fiéis se reuniriam, a fim de celebrar a sua Páscoa.

Por conseguinte, o altar é a mesa do sacrifício e do banquete; nela o sacerdote, tornando presente o Cristo Senhor, realiza aquilo mesmo que o Senhor fez e entregou aos discípulos para que o fizessem em sua memória; o apóstolo claramente o indica ao dizer:

O pão que partimos, não é a comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão’” (Cor 10,16-17) (cf. Ritual da dedicação de altar, n.º 3).

SINAL DE CRISTO

Em todo lugar, atendendo às circunstâncias, os cristãos e cristãs podem celebrar o memorial do Cristo e sentar-se à mesa do Senhor. Mas é bom que haja um altar estável para a celebração da Ceia do Senhor. Harmoniza-se com o mistério eucarístico, motivo pelo qual se trata de um costume que vem da mais remota antiguidade cristã. No atual Ritual da dedicação de altar está escrito que, por sua natureza, o altar cristão “é a mesa própria para o sacrifício e o banquete pascal: mesa própria, onde o sacrifício da cruz se perpetua pelos séculos, até que Cristo venha; mesa onde os filhos da Igreja se congregam para dar graças a Deus e receber o Corpo e o Sangue de Cristo”.

E continua, citando a Instrução Geral sobre o Missal Romano:

“Portanto, em todas as igrejas o altar é ‘o centro da ação de graças que se realiza pela Eucaristia’, para o qual, de algum modo, convergem todos os outros ritos da Igreja”.

E diz mais: “Por realçar que no altar se celebra o memorial do Senhor e se dá aos fiéis seu Corpo e Sangue, os escritores eclesiásticos foram levados a vê-lo como sinal do próprio Cristo – e daí tornar-se comum a afirmação: ‘O altar é Cristo’” (ibid., n.º 4).

HONRA DOS MÁRTIRES

O altar é a mesa do Senhor. Esta é a sua maior dignidade. Na antiguidade era costume dos cristãos erigir o altar sobre os restos mortais dos Mártires. E tinham consciência de que não são os corpos dos Mártires que honram o altar, mas o altar é que torna nobre o sepulcro dos Mártires. Por isso, para honrar seus corpos e dos outros Santos, e também para significar que o sacrifício da Cabeça se perpetua no sacrifício dos membros, hoje se recomenda erigir os altares sobre os sepulcros destes ou encerrar suas relíquias sob os mesmos.

Deste modo, como escreve Santo Ambrósio de Milão († 397), “entrem as vítimas vitoriosas no lugar em que Cristo é a Vítima. Mas, sobre o altar, aquele que morreu por todos; e, sob ele, os resgatados pela paixão de Cristo”.

Faz lembrar a visão do evangelista João, exilado na ilha de Patmos, registrada no livro do Apocalipse:

“Vi debaixo do altar, com vida, os que tinham sido degolados por causa da palavra de Deus e do testemunho que guardavam” (Ap 6,9).

E o atual Ritual da dedicação de altar explicita: “Na verdade, todos os Santos podem, com justiça, ser chamados testemunhas de Cristo. Contudo, o testemunho dado pelo sangue possui força espiritual, que somente as relíquias dos Mártires, colocadas sob o altar, expressam de modo total e íntegro” (ibid., n.º 5).

O CUIDADO DO ALTAR, UM DESAFIO...

O altar cristão é importante “memória” do verdadeiro altar, que é Cristo. Nele, todo cristão e cristã são também altares espirituais. Ele é, ao mesmo tempo, a mesa do sacrifício e do banquete pascal, sinal de Cristo e honra dos Mártires.

Então, resta-nos um desafio: como tratá-lo e como cuidar dele, de maneira que ele possa evocar, de verdade, o mistério de Cristo e da Igreja? O que fazer com o altar, de tal maneira que sua presença no espaço litúrgico realmente nos fale deste mistério? Numa próxima ocasião buscaremos responder a esta pergunta.

por José Ariovaldo da Silva, ofm
Publicado no site Mundo e Missão

domingo, 28 de junho de 2009

Os Elementos Fundamentais do Espaço Litúrgico


Deus se comunica com a gente através de sinais sensíveis. Ora, na celebração da divina Liturgia é que temos um dos lugares mais excelentes em que Deus, no Cristo e pelo Espírito Santo, comunica ao seu povo o dom de sua presença salvadora. Por isso, a Liturgia – toda ela! – é feita de sinais sensíveis. Toda ela, em todos os seus detalhes, tem – e deve ter! – sua indispensável dimensão simbólico-sacramental. A começar pelo lugar físico em que acontece a celebração litúrgica.

Quatro são os elementos fundamentais que não devem faltar na organização simbólico-sacramental do espaço litúrgico, pelos quais nos é dado perceber a presença amorosa de Deus na celebração da divina Liturgia. Valorizar a presença destes quatro elementos, com seu sentido profundamente teológico, eis um dos grandes desafios a partir da nova sensibilidade litúrgica despertada (resgatada!) a partir do Concílio Vaticano II. Cristo está real e vivamente presente na Liturgia (cf. SC 7).

Ora, tal presença deve ser percebida, sentida, como que de maneira palpável, já quando alguém entra num local preparado para uma celebração litúrgica, seja numa igreja, seja em outro espaço. O próprio espaço celebrativo, com a evidência destes quatro elementos fundamentais em destaque, deve nos comunicar esta presença.

O ALTAR

O centro de nossa fé cristã é o sacrifício de Cristo, sua total entrega por nós, confirmada pela Ressurreição, e o dom do Espírito. Ou, no dizer dos antigos santos Padres (Epifânio e Cirilo de Alexandria): Cristo se tornou para nós a vítima, o sacerdote e o altar de seu sacrifício. E pensar que esta entrega se faz presente precisamente sobre o altar de nossas igrejas, toda vez que celebramos o memorial da Páscoa, na santa Missa!

Ou, como explícita a nova Instrução Geral sobre o Missal Romano:

O altar, onde se torna presente o sacrifício da cruz sob os sinais sacramentais, é também a mesa do Senhor na qual o povo de Deus é convidado a participar por meio da Missa; é ainda o centro da ação de graças que se realiza pela Eucaristia” (n.º 296). Assim sendo, o centro de tudo, sobretudo da assembléia reunida, o ponto de convergência e atenção, dentro do espaço celebrativo, tem que ser sempre o altar. E nada – e ninguém! – tem o direito de “roubar-lhe a cena”.

A razão é simples: o altar re-presenta (traz-nos sempre presente à memória) aquilo que é mais sagrado para nós, Cristo, em sua entrega total por nós, ontem, hoje e sempre. O altar é uma memória permanente de que “o altar é Cristo”. Deus nos manifesta a presença do Sacrifício de Cristo na centralidade simbólica do altar. Assim sendo, a primeira coisa que, de cara, deveria nos “encher os olhos”, já desde que entramos numa igreja para a celebração litúrgica, é a visão do altar do Sacrifício eucarístico, em torno do qual nos reunimos para o banquete pascal.

A MESA DA PALAVRA

Antes de celebrarmos o memorial do Sacrifício redentor de Cristo, Deus nos fala quando são feitas as leituras, inclusive quando se canta o Salmo responsorial (que também é palavra de Deus!). É o próprio Deus que se comunica conosco e nos comunica o seu amor, quando é proclamada a sua palavra na celebração litúrgica.

Como explicitamente diz a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II:

Cristo está presente “pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja” (SC 7). Se assim é, pensemos na imensa dignidade desta palavra, quando ela é proclamada! Pois é palavra do próprio Deus!... Assim sendo, segundo nos orienta a nova Instrução Geral sobre o Missal Romano, “a dignidade da palavra de Deus requer, na igreja, um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (n.º 309).

Trata-se da mesa da Palavra, ou ambão (do grego “anabaino”, subir, porque costuma estar em posição elevada, de onde Deus fala). Cristo é o protagonista da ação litúrgica, também no ambão, o espaço reservado para a proclamação da palavra de Deus. Isto significa que este espaço possui, também ele, um sentido simbólico-sacramental de fundamental importância. Ele nos evoca a presença viva do Senhor falando para o seu povo.

O ESPAÇO DA ASSEMBLÉIA

Outro elemento fundamental de um espaço litúrgico: o lugar da assembléia. Porquê? É que a assembléia litúrgica não é uma simples congregação de pessoas, como qualquer outra. Uma vez constituída, mais que um mero ajuntamento de pessoas, ela é uma comunhão de cristãos e cristãs, dispostos a ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. Melhor ainda: é o próprio corpo de Cristo, cujos membros somos nós. E isto significa que, como tal, deve tratar-se de uma assembléia altamente participativa (cf. SC 14).

Assim sendo, também o espaço da assembléia deve aparecer como um “espaço do Cristo” enquanto corpo feito de muitos membros. E que todos os fiéis reunidos possam senti-lo como tal, tanto pela disposição arquitetônica geral do espaço, como pela disposição dos bancos ou cadeiras, em que todos os membros da assembléia possam sentir-se realmente como corpo bem unido, na escuta atenta da Palavra e na participação digna da Liturgia eucarística.

A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA

Na verdade, quem preside a Liturgia é o Cristo, na pessoa do presidente da assembléia litúrgica. O sacerdote que preside a Eucaristia é o sinal sacramental de Cristo Jesus que está presente, mas de maneira invisível. Ao presidir a celebração, ao elevar a oração a Deus em nome de todos, ao explicar a palavra de Deus à comunidade, o sacerdote atua em nome deste Cristo. Por isso ele preside, ou seja, ele se senta diante de toda a assembléia, como representante do verdadeiro Presidente e Mestre, que é o Senhor Jesus.

Para isso é que a Igreja o colocou diante de todos, por mediação do bispo. Assim sendo, para visualizar o mistério da presidência de Cristo na pessoa do ministro (cf. SC 14), a Igreja recomenda que se coloque em destaque a cadeira de quem preside.

Como vemos na nova Instrução Geral sobre o Missal Romano:

“A cadeira do sacerdote celebrante deve manifestar a sua função de presidir a assembléia e dirigir a oração” (n.º 310). Em outras palavras, como já dissemos, a cadeira presidencial em destaque evoca a presença invisível do Cristo que preside a Liturgia na pessoa do ministro.

Por: Frei José Ariovaldo da Silva, ofm
Publicado no site www.pime.org.br/mundoemissao

sábado, 30 de maio de 2009

ARQUITETURA E LITURGIA, O VALOR DO ESSENCIAL



O EXEMPLO DA IGREJA DO MILÊNIO EM ROMA

A construção religiosa nova e a restauração de Igrejas que são Patrimônios tombados são, para a grande maioria dos profissionais da área,  um conceito puramente utilitário.  Desde este ponto de vista estritamente técnico seria o bastante, entre outras coisas, uma boa acústica, uma distribuição perfeita de áreas, ou a realização de técnicas sofisticadas de restauro somado a uma iluminação exuberante para mostrar o monumento.

Na verdade, de um ponto de vista que ultrapassa o meramente técnico, o que deve ser mostrado, antes do monumento,  é a presença do Deus Vivo.

Mas outro lado da questão deve ser levado em conta: é que o templo  não é apenas uma obra de arte ou a nova casa de Deus; não é somente um espaço sacro ou mesmo a “morada” do Senhor na qual o fiel possa entrar para adorar. O templo é, sobretudo, o lugar onde se realiza a liturgia. Fato que deve ser sempre considerado com primazia entre todos os conceitos primários para a idealização de projetos.

O artigo 124 do Capitulo da Constituição do Concilio Vaticano II nos mostra pistas para enfrentar o tema. Nele se recomenda a edificar os templos de forma a fomentar a participação da assembléia. Só assim temos uma verdadeira arte sacra:

 “Al edificar los templos, procúrese con diligencia que sean aptos para la celebración de las acciones litúrgicas y para conseguir la participación activa de los fieles”

 Participação entendida como a passagem de uma forma de culto distante para uma confluência consciente entre povo, sacerdote e  rito, significa passar de uma liturgia de ouvinte para a de comunhão e partilha, significa passar de uma arquitetura estritamente racional para um espaço partilhado entre o Deus Vivo e o homem.  Segundo Simson,[2] grande historiador da Arquitetura religiosa medieval, a liturgia se aplica metaforicamente a todos os templos, independentemente do seu estilo  ou forma. Para ele o aspecto externo pode ser uma prova, mas não uma causa dessa correspondência mística entre a estrutura visível e uma realidade invisível. Do mesmo modo, o  interior deve ser a verdade sobrenatural que expressa a vida que reside na liturgia, o culto é a forma dessa aliança. Assim também Deus oferece a Abraão uma aliança para constituir o povo peregrino, sendo o lugar do culto, e o seu simbolismo essenciais para  manutenção desse pacto;

“Moisés baixou e contou ao povo o que havia falado o Senhor. Então Moisés colocou por escrito todas as palavras do Senhor, madrugou y levantou um altar ao pé do monte com doze estrelas pelas doze tribos de Israel” (Ex 24, 3s). 

A LITURGIA E A ARQUITETURA ATRAVES DA HISTÓRIA

No contexto da idade Media, ao construir Catedrais, o arquiteto herdava o ensinamento dos antigos mestres, ou seja, estava garantida a permanência e a continuidade do processo evolutivo da arquitetura religiosa intimamente ligada à teologia escolástica. Nesse mundo que buscava a Jerusalém Celeste[3], o  Habitaculum Dei  in spiritu”[4]. Assim, a catedral gótica representava não somente a expressão do mundo acerca de Deus, mas também a própria comunhão entre Ele e o Homem  através da arquitetura, numa verdadeira celebração litúrgica por meio da arte.

Depois disso, o primeiro sistema racional e mais alheio a teologia corrente, produziu no renascimento a inspiração da beleza clássica, ou seja, com os pressupostos gregos e romanos na Florença do século XIV, cheia de humanismos com seus tratados e estudos científicos, origem bastarda da nossa Academia. Nesse tempo, o espírito religioso, procedente dos intensos séculos anteriores, lutou intensamente por aflorar na geometria  objetiva e desapreensiva do Renascimento.  Assim mesmo triunfou a arte sacra nessa humanista arquitetura reavivando o espaço de celebração até que na conjuntura critica da contra-reforma, a glória de Deus reapareceu exuberante na grandiosa vaidade do Barroco. A liberdade de expressão barroca trouxe para o projeto arquitetônico religioso - agora já no Brasil - a possibilidade de se trabalhar com questões culturais e contextos de vida, o que contribui efetivamente para a construção de uma  identidade arquitetônica inculturada e que deixa marcas profundas no modo de perceber o mundo e produzir arquitetura religiosa até mesmo na contemporaneidade.

Apesar de tudo, foi o Concilio Vaticano II que ofereceu novo sopro ao mundo da arte sacra, que é necessário ser resgatado a cada dia em nossos projetos.

LITURGIA E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA

 “Brilhe teu rosto sobre o teu santuário.”  (Dan, 9, 18.)

Uma pergunta se delineia no cenário contemporâneo e nos sugere uma fecunda reflexão e também uma proposta de conduta. Somente as diretrizes conciliares são capazes de zelar para uma boa arquitetura religiosa em um mundo tão complexo e fragmentado como o nosso e uma Igreja que se expressa de tantas maneiras? Nesse sentido, cremos que na concepção do templo tudo tem que ser arte[5]. Como as catedrais medievais houve uma teologia fervorosa de cantores, assim o templo deve ser obra de uma arte coletiva, participativa, com sentido real e plural da Liturgia[6]: uma arte da comunhão, como os materiais bem trabalhados e cumprindo cada um, sua função, constituindo, assim, a construção do edifício, a imagem do Corpo Místico de Cristo. Uma arquitetura que assuma na sua concepção todas as artes a exemplo da Liturgia.

Fazer um templo ou restaurar uma Igreja é redimir as coisas, é estabelecer liames. Razão por que tudo deve ser executado com um espírito de cooperação ao sacrifício eterno de Cristo. Nesse sentido, o homem está chamado a completar as regras valiosas definidas pelo Sacro Concilio e suscitar a operação do Espírito Santo para renovar a face da terra e conseqüentemente a arte da Igreja que por dois mil anos foi a grande protagonista do mundo ocidental.

Assim, a arquitetura da liturgia é a inteligência das coisas a serviço do culto. Vejamos o exemplo da Igreja do Milênio, encomendada pelo Vaticano por ocasião do Jubileu 2000 e escolhida por meio de um concurso internacional. Nos parece interessante para uma percepção prática da reflexão proposta as palavras.

IGREJA DO MILÊNIO, UMA TENTATIVA DE EXPRESSAR A LITURGIA NA IGREJA CONTEMPORANEA

"Esta Igreja ficará como recordação perene do XXV aniversário do meu Pontificado” Papa João Paulo II


O lugar escolhido  foi a Tor tre Teste, um bairro obreiro na periferia de Roma.  Tratava-se de um bairro degradado com blocos residenciais dos anos sessenta e com poucos espaços de usos públicos. Richard apresentou um programa complexo e de acordo com o que, na verdade, é uma exigência da arquitetura religiosa contemporânea: projetar não só o edifício isolado, mas também coordenar uma série de funções que atendam às necessidades da comunidade.

Esses novos espaços, como salas de aula, auditório, cafeteria, banheiros, lugares de encontro comunitário visam a tornar mais ativa a participação do leigo na vida da Igreja. Estas novas orientações pastorais e litúrgicas surgiram na Igreja após o concilio Vaticano II,.. O edifício é uma composição de elementos arquitetônicos ordenados de forma a criar uma ordem que atenda a essas novas perspectivas pastorais e, além disso, traz consigo uma gama de elementos simbólicos e dogmáticos da história da Igreja.  


Richard se vale dos símbolos sacramentais para organizar o complexo de forma a dar um sentido de religiosidade mais profunda, perdido em alguns projetos. Dois eixos percorrem o terreno e se cruzam dentro da Igreja. A fachada da entrada é uma parede de vidro, separadas por três esbeltas folhas de concreto que simbolizam a Santíssima Trindade. O vidro e as esbeltas paredes côncavas dão uma idéia de convergência, movimento e transparência, ou seja, a possibilidade de ver o interior, também expressa a condição de distância e proximidade implicando peregrinação. As três peças que na fachada são aparentemente distintas, se confluem no interior, gerando outros dois espaços menores e ligados entre si. São eles, a capela, o batistério. Nas paredes laterais, Richard Meyer se vale da alta tecnologia para resgatar a iconografia religiosa. Grandes telões de cristal líquido dão lugar a projeções da Via Sacra.

            Pelo caminho que optamos nesta brevíssima reflexão, só poderemos esperar – e esperamos com fé – que o templo volte a ser e seja sempre, mais do que um lugar santo, o lugar da santidade do homem porque aí emergem os sinais de sua busca eterna pelo Deus da vida. Um Deus que o revela a si mesmo levando-o a comungar com o outro e com todos, irmanando-se no CRISTO SENHOR.

"Além do Espaço Litúrgico o prédio possui quatro pisos, no subsolo, duas grandes salas de reuniões e um auditório abrem-se para um pátio. No térreo o mesmo nível da nave principal - ficam as áreas de trabalho dos padres e salas de catequese, que ocupam ainda o primeiro piso. No segundo andar, está a residência do pároco, com sala, cozinha e quatro quartos."

Por Leônidas José de Oliveira[1] (artigo originalmente escrito em Italiano para a Revista CHIESA OGGI – ARCHITETTURA E COMUNICAZIONE, 2005)

[1] Mestre em Restauração e Reabilitação do Patrimônio Arquitetônico e Urbano, doutorando em Teoria da arquitetura e projetos, com ênfase em Arquitetura Religiosa, UAH, Madrid e UVA, Valladolid, Espanha.

[2]Otto von Simson, La catedral gótica, Alianza, Madrid, 1980, p. 120.[3] Apocalipse de São João, capitulo 21. Também no antigo testamento, o profeta Ezequiel foi transportado durante uma visão a uma montanha e lhe mostrou a características precisas do templo de Salomão em Jerusalém. No novo testamento, a ideia de Jerusalém está desenvolvida para representar uma idéia de perfeição. Para complementar ver: HUMPHREY, Caroline. Vitebsky, Piers. Arquitectura Sagrada, Op. Cit.; p. 13. [4]Os fieis e as Igrejas se fundamentam nos cimentos dos apostolos e dos profetas, uns e outros son Habitaculum Dei  in spiritu e portanto significavam a mesma coisa. Ver: Efésios, 2,19. A construção de Igrejas como casa de Deus pode também ser interpretado como símbolo da “Civitas Dei, de Regnun Dei”. É nesse sentido que se percebiaos lugares numinosos, ou seja, que possuem algo de transcendencia. Ver: FRANKL, Paul. Arquitectura Gótica. Manuales de Arte Cátedra, Madrid, 2002, pág. 411.[5] Alférez, Madrid, mayo de 1948, Año II, número 16 [páginas 4-5] José Luis Fernández del Amo [6] ARQUITECTURA Y LITURGIA, Louis Bouyer (Grafite Ediciones)