domingo, 9 de setembro de 2007

A Espiritualidade das Catacumbas (cont.)


(última parte)

Espiritualidade bíblica

Pintores e incisores, escultores e epígrafos, parecem-nos embebidos e inspirados pela Palavra de Deus. Aqui, o Antigo Testamento é todo meditado e interpretado à luz do Novo Testamento. Parece ouvir os temas centrais dos Evangelhos e das Cartas. Assim como a Liturgia e a literatura patrística, também a Espiritualidade das Catacumbas alimenta-se das Sagradas Escrituras, a exemplo da mártir Cecília que, segundo as Atas do martírio "semper evangelium Christi gerebat in pectore" (carregava sempre consigo o Evangelho de Cristo), e no ato supremo do martírio indica com os dedos a Unidade e a Trindade de Deus.

Espiritualidade nova e transformadora

Descobre-se aqui a verdadeira revolução operada pelo Cristianismo. Estão presentes de modo particular dois tipos de personagens de grande força espiritual: o "mártir" e a "virgem". O "mártir" dá a vida para atestar a certeza da própria fé; dá-la com serenidade e sem lamento em meio ao desencadear-se de brutalidades e torturas; morre sem ódio pelo assassino, antes, implora o perdão para ele. Muitos cristãos sepultados nas catacumbas realizaram de modo sublime e em inúmeros casos o martírio cruento. A figura da "virgem" cristã não está ausente das catacumbas. É significativo sobre isso o poema damasiano em honra de sua irmã Irene, sepultada no complexo calistiano:
"... Esta, quando ainda em vida, tinha-se votado a Cristo,assim que o mesmo santo pudor provou o mérito da virgem...E agora, quando Deus vier até mimlembra-te de Dâmaso, ó virgem,para que a tua luz me ilumine".
Saindo das Catacumbas de São Calisto, a última grande lápide que se vê no fundo da escada é a de Baccis. Grandes e rudes caracteres vermelhos em pedra cinzenta contam uma humilde história. Quem meditá-la perceberá com os olhos da fé, transparecer por detrás das letras dois vultos: um delicado, da menina morta, e outro áspero, do pai, no qual brilha um sorriso de ternura cheio de lágrimas. Eis as palavras: "Baccis, doce alma. Na paz do Senhor. Viveu 15 anos, 75 dias. (Morreu) nas vésperas das calendas (dia 1º) de dezembro. O pai à sua dulcíssima filhinha ". Uma onde divina de pureza e de ternura entrara com a fé de Cristo também nas famílias mais humildes.
Nas mesmas catacumbas desceu certo dia um peregrino em busca de conforto. Entrou rezando, e no fundo da escada, confiou à parede um augúrio de vida feliz entre as almas diletas para a sua morta: "Sofronia vivas cum tuis" ("Sofrônia, vivas com os teus"). No fundo da escada o querido nome aparece de novo com um augúrio de vida em Deus: "Sofronia, vivas in Domino" ("Sofrônia, vivas no Senhor"). Enfim, num cubículo ao lado de um arcossólio, a escrita aparece uma terceira vez. Na oração, o luto perdeu a sua amargura e tornou-se uma esperança cheia de imortalidade: "Sofronia dulcis semper vives in Deo" ("Sofrônia, vivas docemente em Deus para sempre"), escreve o peregrino no alto. Mas parece que de seu coração acalmado transborde ternura, e ele ainda grava: "Sofonia, vives...": (Sim, Sofrônia, tu viverás!...).
Admirável síntese em que se funde um drama humano e de luto com a expressão apaixonada da fé consoladora: vida além da morte, vida entre os caros, vida perene, vida em Deus.Enfim, com as relações familiares aparecem nobilitadas as Relações sociais. As sepulturas cristãs ignoram indicações de cargos e honras, habituais nos epitáfios pagãos.São freqüentes, porém, as indicações, não só de profissões elevadas, como a de Dionísio médico e padre, mas também de ocupações humildes, dos pobres "banausòi", "operáios", desprezados pelos sábios do paganismo. Temos só em São Calisto o hortelão Valério Pardo que traz na mão esquerda um maço de hortaliças e na direita a foice; Márcia Rufina, a digna patroa, a quem Segundo Liberto coloca uma inscrição com o símbolo da oficina: um martelo e a bigorna. Num arcossólio a vendedora de hortaliças senta-se entre seus maços de verdura, etc. A religião do Artífice de Nazaré tinha dignificado o trabalho.Pode ser útil acrescentar e esses aspectos da espiritualidade ilustrados pelo saudoso estudioso P. Ugo Galizzia, SDB, professor de Exegese do Novo Testamento e de Arqueologia Cristã no Pontifício Ateneu Salesiano de Turim (Itália),um outro aspecto da espiritualidade das catacumbas freqüentemente esquecido, ou seja, a espiritualidade do silêncio.


Espiritualidade do silêncio


Pode parecer estranho falar de espiritualidade do silêncio, porque o silêncio, à primeira vista, é apenas um vazio sem sentido, pura ausência de palavras, pensamentos e sentimentos. Na realidade, o silêncio da palavra, da imaginação e do espírito é uma dimensão humana fundamental: pertence à nossa essência, porque é o vigilante do nosso mundo interior, a condição prévia da escuta, a necessária premissa de toda comunicação humana.Percorrendo as galerias das catacumbas ou detendo-nos nas criptas, somos imersos numa atmosfera de silêncio, que é contudo apenas o silêncio de um antigo cemitério. Ele, porém, atinge-nos intimamente, porque não é silêncio de morte, de saudade sem esperança de tudo que era caro aos Cristãos durante suas vidas. É silêncio de plenitude, repleto das vozes dos mártires que viveram a nossa vida, e que corajosa e constantemente testemunharam a própria fé não só em tempo de paz religiosa, mas sobretudo nas perseguições.Este silêncio é cheio de paz, de esperança numa futura vida melhor na luz da ressurreição de Cristo. O silêncio das catacumbas está cheio de história e de mistério; é sagrado, significativo e mais eloqüente do que as próprias palavras; é enriquecedor porque nos leva a refletir sobre a Igreja das origens, o heróico testemunho dos Mártires, como também o testemunho ordinário dos simples cristãos, que não sepultaram a própria fé debaixo da terra, mas viveram-na na vida de cada dia, na família, na sociedade, no trabalho, em cada tarefa ou profissão.É um silêncio comunicativo, que fala ao coração e à mente dos peregrinos, que lhes revela o mundo desconhecido da Igreja primitiva, com suas classes sociais, sentimentos e afetos; com as penas e as esperanças dos Cristãos sepultados nas catacumbas. Não podemos sufocar esse silêncio, que fala por si mesmo, ou melhor, grita mais imperiosamente. São Gregório Magno falou do "strepitus silentii", do "fragor do silêncio", uma marca que se adapta perfeitamente ao silêncio das catacumbas.Esta atmosfera de silêncio, evocativa da vida e do sacrifício dos primeiros Cristãos, constitui um lugar privilegiado de meditação espiritual, de revisão de vida, de renovação da fé. O seu testemunho corajoso e fiel interpela-nos pessoalmente. Qual é a "nossa" resposta hoje ao amor de Deus, numa sociedade que talvez não é tão hostil como a deles, mas que é principalmente indiferente aos valores religiosos?As catacumbas deixam-nos uma mensagem de fé silenciosa, mas clara, tão mais necessária porque a nossa época está doente de rumor, de exterioridade, de superficialidade. Aqui as palavras não são necessárias, porque as catacumbas falam por si mesmas.


Isto é o Cristianismo, em seu grau máximo de simplicidade e de intensidade, incorporado em figuras de mártires, confessores e virgens, que falam das criptas e deambulatórios, das pinturas e lápides consagradas por quase dois milênios de veneração. É justamente esse o caráter de essencialidade elementar, eficaz, inexaurível, que fez das catacumbas romanas uma das metas prediletas da Cristandade peregrina.Nos passos dos mártires e dos primeiros cristãos, a espiritualidade das catacumbas haverá de ajudar-nos a celebrar o Jubileu com uma verdadeira e profunda renovação da nossa fé para "viver da plenitude da vida em Deus" (Tertio Millennio Adveniente, n. 6).

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

6º Encontro Nacional de Arte Sacra (2ª parte)

Segunda parte da carta de Dom Joviano de Lima Júnior,SSS aos participantes do 6º Encontro Nacional de Arte Sacra que se realizou de 25 a 28 de julho em Vitória - ES.
A capacidade simbólica do espaço litúrgico

... tenha-se presente que a finalidade da arquitetura sacra é oferecer à Igreja que celebra os mistérios da fé, especialmente a Eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica; de fato, a natureza do templo cristão define-se precisamente pela ação litúrgica, a qual implica a reunião dos fiéis (ecclesia), que são as pedras vivas do templo (cf. 1Pd 2,5).
O mesmo princípio vale para toda a arte sacra em geral, especialmente para a pintura e a escultura, devendo a iconografia religiosa ser orientada para a mistagogia sacramental. Um conhecimento profundo das formas que a arte sacra conseguiu produzir, ao longo dos séculos, pode ser de grande ajuda para quem tenha a responsabilidade de chamar arquitetos e artistas para comissionar-lhes obras de arte destinadas à ação litúrgica...”

“Enfim, é necessário que, em tudo quanto tenha a ver com a Eucaristia, haja gosto pela beleza; dever-se-á ter respeito e cuidado,também, pelos paramentos, alfaias, os vasos sagrados, para que interligados de forma orgânica e ordenada, alimentem o enlevo pelo mistério de Deus, manifestem a unidade da fé e reforcem a devoção”[1]

A sacramentalidade da ação litúrgica torna-se mais evidente quando o belo se expressa com toda a sua força. Tomemos como exemplo a visibilidade da fonte batismal.

O batistério, lugar expressivo da unidade de toda a Igreja, deve ter a sua visibilidade garantida no espaço litúrgico. A partir da Conferência de Aparecida, se fala muito em Iniciação Cristã, da qual o Batismo é o primeiro sacramento. Como sabemos o elemento mais ligado ao Batismo é a água. Mas, no rito há também a unção com o óleo dos catecúmenos e com o óleo do Crisma. De um lado, temos na visibilidade do batistério um apelo constante à conversão – ao discipulado e, de outro, o envio missionário. O cristão é chamado a fermentar a sociedade. Daí a tensão em direção ao sacramento da maturidade cristã que é a Crisma. Todo o processo de Iniciação Cristã tem o seu ponto alto na Eucaristia – a mesa do Senhor. No momento em que se coloca em questão a reforma litúrgica do Vaticano II, é preciso ressaltar o altar como símbolo de Cristo, ao redor de quem toda a assembléia celebrante se reúne. Um forte motivo para se garantir a visibilidade do altar.

É preciso haver uma harmonia entre batistério – Fonte Batismal e a Mesa eucarística, sem nos esquecermos da Mesa da Palavra. Aquilo que Romano Gardini fala da obra de arte, vale sobretudo para o espaço litúrgico: “Uma autêntica obra de arte não é, como toda presença percebida imediatamente, um mero fragmento do que se exibe, mas uma totalidade.”[2] Acrescenta que “a unidade do objeto que se capta e da pessoa que o capta tem um poder evocador. Em torno dela se faz presente a totalidade da existência: a totalidade das coisas, a natureza e a totalidade da vida humana, a história, ambas coisas vivas numa só.”[3] É nesta totalidade que o belo se manifesta e o espaço litúrgico se revela como um lugar de relações. O espaço litúrgico não se destina somente à oração pessoal, mas, sobretudo, para uma ação comunitária. Ele precisa ser um enunciado da liturgia que ali é celebrada. Sem querer ensinar arquitetura ao arquiteto, é preciso levar em conta que o espaço litúrgico deve ser sempre pensado como um lugar ocupado por pessoas. Não simplesmente um espaço admirado pela sua harmonia e beleza. Diante de tudo isso, surge uma pergunta: Qual a melhor solução para uma maior visibilidade da fonte batismal? E, para que ao olhar o ambão quem entra no espaço litúrgico possa dizer: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”?

Uma vez garantida a beleza e a visibilidade dos elementos que compõem o espaço litúrgico, caberá à liturgia celebrada, enquanto itinerário de fé e vida, levar as pessoas a passarem do olhar de admiração da beleza da arquitetura à contemplação da beleza do mistério. De certa maneira, o processo de iniciação nunca termina, pois a mistagogia faz com que as pessoas experimentem o que celebram. Ainda uma observação de J. M Canals: “O ser humano expressa a beleza de duas formas: a primeira, quando se inspira na natureza, em algo que está fora de si, e se esforça por reproduzir formas, cores e sons; a outra, quando ele entra dentro de si mesmo, e de seu espírito criador faz brotar a forma que plasma no exterior em obras e atitudes pessoais e transforma a matéria dando-lhe forma, cor e ritmo.”[4]

A Igreja é a casa do povo

O templo, onde a comunidade se reúne para expressar o seu amor a Deus, é a casa do povo. Com suas portas sempre abertas, a domus ecclesiae a todos acolhe. A sua presença na cidade já é um sinal de fraternidade e solidariedade.

Toda a comunidade deve ser envolvida na obra de arte, sobretudo quando se tratar da construção de uma igreja, verdadeiramente a Casa da Igreja, lugar e escola de comunhão dos pobres[5].


Dom Joviano de Lima Júnior, SSS

sábado, 11 de agosto de 2007

6º Encontro Nacional de Arte Sacra


Abaixo a carta de Dom Joviano de Lima Júnior,SSS aos participantes do 6º Encontro Nacional de Arte Sacra que se realizou de 25 a 28 de julho em Vitória - ES.
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O Esplendor e a Beleza na Ação Litúrgica

Com estas palavras do Papa Bento XVI gostaria de abrir este encontro:

“A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza. De fato, a liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na liturgia brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a si e chama à comunhão.” (Sacram. Caritatis,35).

“A profunda ligação entre a beleza e a liturgia deve levar-nos a considerar atentamente todas as expressões artísticas colocadas a serviço da celebração. Um componente importante da arte sacra é, sem dúvida, a arquitetura das igrejas, nas quais há de sobressair a coerência entre os elementos próprios do presbitério: altar, crucifixo, sacrário, ambão, cadeira.” (Sacr. Caritatis41)

“A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. A beleza da liturgia pertence a esse mistério: é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra.”[1]


O valor teológico e litúrgico da beleza

A espiritualidade foi o foco do último encontro, na cidade d Rio de Janeiro. A espiritualidade, como a obra de arte é uma experiência a ser transmitida. Todo artista transmite o que ele toca com as mãos, o que se encontra no u coração. Há,na 1 Jo 1,1-3, um texto iluminador:

O que desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida – da vida que se manifestou, que nos vimos e testemunhamos, vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós - ,isso que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho Jesus Cristo.

Hoje, afirma-se que o lugar autêntico da teologia não é a sala de aula mas a festa. A justificativa está na história da composição e no uso dos livros da Sagrada Escritura que não foram redigidos como um texto qualquer. Mas foram redigidos para darem sentido à existência de um povo. Ser a sua memória. E projetar o seu futuro.

A originalidade da Sagrada Escritura reside no fato de ter sido escrita para ser proclamada, narrada e cantada. A Palavra de Deus, em Israel, faz parte da constituição do povo e do culto da nação, juntamente com a promessa da terra. Ela está voltada para o louvor da presença amorosa de Deus e ao reconhecimento da sua ação benéfica no meio do povo. O povo é de Deus e Deus é o Deus do seu povo!

O Novo Testamento valoriza a festa, enquanto ela é decorrência de um encontro, de uma experiência com o Ressuscitado. Isso se torna mais evidente na liturgia celebrada[2]. E dando por adquirido que a melhor linguagem para falarmos de Deus seja a beleza, a liturgia só poderá cumprir sua função se for bela. Parafraseando, K. Rahner[3], eu diria que a liturgia é bela ou não é liturgia autentica! A comunicação – a linguagem da liturgia – torna-se inteligível ao mundo de hoje se estiver impregnada de beleza.

A beleza na liturgia faz com que a presença de Deus seja transparente aos nossos contemporâneos. Segundo J. Canals[4] “a beleza é uma dimensão interior que se abre à exterior e se encarna em formas diversas. Na cultura atual, dominada pela técnica e pelo utilitarismo, urge resgatar a beleza e a gratuidade. A beleza, para um cristão, é uma exigência interna da fé que o leva à Beleza do Deus que é Verdade e Amor. Quanto à Liturgia, não deve ser condenada à banalidade, mas é necessário fazer com que ela frutifique em beleza e em santidade.” No número 35 da S. Caritatis, Bento XVI ; “A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza.” O grande ícone desta beleza, que está ligada à Trindade, será sempre a Páscoa de Cristo.

A beleza, além de abrir-nos um horizonte sem fronteiras, é uma via privilegiada para a compreensão do ato de fé. “Concluindo, a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isso nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza.”[5]

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autor: Dom Joviano de Lima Júnior,SSS

domingo, 5 de agosto de 2007

A Espiritualidade das Catacumbas


(3ª parte)

Espiritualidade social

A espiritualidade das catacumbas é também "social": o cristão habituado a dizer na oração não mais "Meu Pai", mas "Pai nosso", sabe que na família de Deus não se vive de modo isolado, mas socialmente: "Sendo muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm 12,5). As catacumbas dão-nos a imagem desse corpo místico no qual os cristãos ordinariamente convivem em hierarquia de funções e em unidade de espírito. Aqui os Pontífices Mártires repousam em meio à humilde multidão do seu rebanho.

Da parte frontal de um sarcófago, um jovenzinho eleva as mãos em atitude de orante bem-aventurado na visão de Deus: aos seus lados, parece que Pedro e Paulo, os fundadores da Igreja de Roma, o introduzem na pátria beata.

Em Domitila, na pintura de um arcossólio, Veneranda chega com roupas de viagem, peregrina que concluiu o seu exílio, às portas da pátria: a santa do lugar, Petronília, com aspecto suave, a acolhe e faz entrar.Há um intercâmbio de orações entre as diversas partes da Igreja! Centenas de peregrinos recomendam-se a Pedro e Paulo sepultados na Memória da Via Appia Antiga (Catacumbas de São Sebastião), gravando breves mensagens na argamassa da tríclia (ambiente para banquetes funerários, a céu aberto): "Paulo e Pedro, orai por Vítor - Pedro e Paulo, tende Sozomeno no pensamento".
No ingresso do mausoléu dos Papas em São Calisto, a parede está constelada de orações: "S. Sisto, tem Aurélio Repentino no pensamento", "Espíritos Santos... que Verecundo bem navegue com os seus". Às vezes não há uma oração explícita: basta, para implorar, uma qualificação acrescentada ao nome: "Felicião, sacerdote, pecador".Contam-se aos milhares as inscrições com orações dos vivos pelos defuntos ou com solicitações aos mortos para que rezem pelos que estão vivos. Na sociabilidade do Corpo Místico, cada indivíduo está ligado à Igreja inteira.

Espiritualidade Escatológica

O cristão tende aos "éscata", isto é, às realidades definitivas da vida eterna: "Não temos aqui em baixo morada permanente, mas estamos em busca da morada futura" (Hb 13,14). "A nossa pátria é nos céus" (Fl 3,20). Basta um breve giro por uma catacumba para ver essa verdade brilhar da mais viva luz. E chegamos à escada que desce à Cripta dos Papas (foto acima). Na parede esquerda uma lápide fala-nos de Agripina, "cuius dies inluxit": o dia da morte foi o dia do seu ingresso na luz, na esperada bem-aventurança. Pouco abaixo uma inscrição grega de Adas, que "ecoimète", "adormeceu", como a menina de Cafarnaúm, que - como diz o Evangelho - "não está morta, mas dorme" (Mc 3,59), e espera a chamada d'Aquele que é a ressurreição e a vida.Numa capela, Jonas, que escapara das garras do monstro representante da morte, repousa placidamente à sombra de um caramanchão. Mais além, o Bom Pastor aperta com ternura o cordeiro nos ombros: a morte não é mais terrificante para o cristão, que é levado por Jesus a verdes pastagens.
Da parede de um cubículo cinco cristãos elevam os braços em ato de adoração; ao redor deles um belíssimo jardim florido: é o paradisus, o jardim celeste. De uma lápide, entre as mais antigas, uma cruz-âncora anuncia-nos que chegou ao porto do paraíso uma cristã que tem um luminoso nome de estrela: "Hèsperos".Estes cemitérios são, também, cheios de paz. A resposta está na fé dos antigos cristãos, que freqüentemente fala no silêncio das catacumbas: "Porque procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5). "Eu sou a ressurreição e a vida" (Jo 11,25). "Não tenhas medo, somente fé" (Mc 5,36).
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domingo, 29 de julho de 2007

A Espiritualidade das Catacumbas

(2ª parte)
Espiritualidade Sacramental

A espiritualidade das catacumbas é também sacramental. O mundo exterior da matéria entra, nos sacramentos cristãos, como sinal e como instrumento, realizando a redenção e a salvação do homem: Batismo e Eucaristia.Em nenhum outro cemitério encontram-se tantas representações sacramentais como as que encontramos nos Cubículos dos Sacramentos em São Calisto. Acenemos aos Sacramentos dos quais existe uma documentação maior.


BATISMO.


Não estamos ainda no tempo em que serão erigidos edifícios esplêndidos para honrar esse Sacramento (p. ex. o Batistério do Latrão). O Batismo ainda era conferido nas domus Ecclesiae, as casas de família, e não raramente em segredo. A grandeza do sacramento, porém, era conhecida. Paulo havia falado dele com termos grandiosos justamente na Carta aos Romanos (c. 6). Os cristãos sabiam que através do rito batismal, o homem morre e ressurge misticamente com Cristo, e é associado à vida divina pela eficácia desses atos redentores.Uma das mais antigas pinturas nos assim chamados Cubículos dos Sacramentos, em São Calisto (foto acima), mostra-nos o Batismo. Diante de um espelho d'água, senta-se um pescador que, com o seu anzol, tira um peixe para fora: agrada-nos ver nesse personagem um apóstolo, que obedece ao mandamento de Jesus: "Segui-me; eu vos farei pescadores de homens" (Mc 1,17).Muitos cristãos, "alcançados por Cristo" (Fl 3,12) após angustiantes experiências interiores, sentiam que o momento do Batismo marcara o início de uma vida nova. De aqui o nome que se lê numa lápide da tricora de São Calisto, nome que depois tornou-se tão comum na Cristandade: "Renatus": "Nasci de novo!".
EUCARISTIA.

E eis-nos diante da jóia destas Capelas: a trilogia eucarística.No afresco, os cristãos reunidos à mesa eucarística são sete, como os discípulos reunidos ao redor de Jesus ressuscitado às margens do lago; nos pratos diante deles está o peixe: Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. Na cena à esquerda, o sacerdote estende as mãos sobre uma pequena mesa onde está o pão eucarístico: referência clara ao ato de consagração reservado aos ministros; do outro lado da mesa, um orante com os braços elevados recorda-nos que, para ir para o céu, é preciso nutrir-se daquele pão consagrado (a Eucaristia).O terceiro quadro, à direita, é claro a quem se lembra das palavras do hino de Santo Tomás: "In figuris praesignatur cum Isaac immolatur": "Na imolação de Isaac é prefigurado o sacrifício de Cristo".Não podemos deixar de lado uma representação, preciosa pela sua antigüidade e pelo seu grande valor pastoral. Na Cripta de Lucina, datada do séc. 2º, na parede diante da entrada, estão representados simetricamente dois peixes, diante dos quais estão colocados dois cestos cheios de pães (foto acima). Entrevêem-se nos cestos duas taças de vinho. O peixe é Cristo; pão e vinho são as espécies sob as quais Ele se faz presente na Eucaristia.Estamos nas fontes da cristandade. O cristão antigo, consciente de que "não existe sob o céu outro nome dado aos homens, no qual possam ser salvos, senão o de Cristo" (At 4,14), sabe que só pode ser associado a Cristo através dos Sacramentos instituídos por Ele com essa finalidade.


domingo, 22 de julho de 2007

A Espiritualidade das Catacumbas


(1ª Parte)
Parecia ao desconhecido cristão dos primeiros tempos, que peregrinava na vasta necrópole calistiana, ter entrado na mística Jerusalém, na cidade que se tornara púrpura pelo sangue dos mártires e refulgente da sua glória. Ao sair, ele gravou de forma elegante, numa parede, estas palavras que ainda hoje podem ser lidas: "JERUSALEM CIVITAS ET ORNAMENTUM MARTYRUM DEI...": "Jerusalém, cidade e ornamento dos mártires de Deus".O peregrino de hoje, igualmente, entrevê nas catacumbas com espírito comovido o segredo íntimo da espiritualidade daqueles pontífices mártires, daquelas virgens e daquela inumerável multidão de desconhecidos cristãos.As inscrições e pinturas, supérstites a tantas devastações e depredações, revelam esse segredo, ao menos em parte, e ainda repetem as palavras de um antigo epitáfio cristão: "Tàuta o bìos": "Esta é a nossa vida".
A espiritualidade das catacumbas é a mesma da Igreja primitiva em sua juventude de conquistas e de martírio. Nutrida pelo cerne das escrituras, simples e poderosa, ela é a irmã das mais antigas liturgias, e assim o visitante das catacumbas bebe nas fontes da espiritualidade cristã.São vários os aspectos dessa espiritualidade:

Espiritualidade cristocêntrica

Essa espiritualidade coloca Jesus Cristo como a figura dominante. Aquilo que o sagrado Coração de Jesus, quer dizer, o sinal da bondade de Cristo é para o católico de hoje, para o cristão antigo era o Bom Pastor. Entre as representações das catacumbas essa é a mais freqüente; está pintada nos tetos, entre ricas decorações floreais, gravada toscamente nas placas sepulcrais, modelada em relevo sobre os sarcófagos e, enfim, esculpida com grega elegância numa das mais antigas estátuas cristãs que se conheçam (séc. 4º, Museus Vaticanos).

O cordeiro que repousa sobre seus ombros, seguro com força pelas mãos do pastor é o cristão (ao lado foto da catacumba de São Calixto, sec. III, Roma). Tudo ao redor respira a atmosfera de confiança que fazia Paulo exclamar: "quem haverá de separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome?" (Rm 8,35). O Salvador é freqüentemente representado em ação no meio dos homens: nos baixos-relevos ou nas paredes vê-se Jesus que toca os olhos ao cego ou que faz Lázaro ressuscitar do túmulo, que multiplica os pães ou muda a água em vinho: é o Cristo que passa fazendo o bem.Vêm, depois, os símbolos. Talvez as representações mais significativas sejam aquelas em que Cristo aparece sob o véu de um símbolo. Antes de Constantino, quando a cruz era usada todos os dias como patíbulo de escravos e de estrangeiros, o cristão cobria piedosamente o seu aspecto repelente com alguns símbolos, como, por exemplo, a âncora e o peixe. Ao lado de Jesus, os cristãos das catacumbas gostaram de representar, com afeto filial, a sua Virgem Mãe. Já nos inícios do séc. 3º, nas Catacumbas de Priscila, a figura suave de Maria, que segura Jesus junto ao seio, enquanto o profeta Balaão indica a estrela que resplende acima de sua cabeça. E ainda a Virgem que mantém o Filho nos braços, enquanto os Magos aproximam-se para oferecer os seus presentes. A adoração dos Magos é repetida nas várias catacumbas em pinturas, esculturas e outros objetos preciosos (reliquiários, marfins, pingentes, anéis).

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domingo, 15 de julho de 2007

A Influência da Liturgia na Arquitetura Cristã

Ícone Divina Liturgia
(Final)

A mentalidade moderna é outra, é democrática e não aceita privilégio de çastas (pelo menos o afirma). Mas é preciso fazer-se uma correção histórica: se a Igreja de um lado destacou os governantes (prestando um tributo de respeito perfeitamente justificável, criando um clima de mútua colaboração até hoje desejável, desde que não haja bajulação ou concessões indevidas), de outro lado prestigiou com estas medidas um grupo da classe média, não-nobre, nas Irmandades e Corporações. E sabemos que com isso ganhou a burguesia (hoje um termo que indica "classe rica", mas naquela época uma classe, se bem que respeitável, contudo muito distanciada da classe verdadeiramente dominadora da nobreza) prestígio e auto-confiança.
Por outro lado havia assim chance para que uma pessoa de origem humilde subisse na sociedade. Até as pessoas de cor viram-se assim respeitadas pela Igreja - ato corajoso para as circunstâncias dessas épocas passadas. É por isso, além do sincero entusiasmo pela fé, misturando menos do que hoje cristianismo e fetichismo, que os pretos e mulatos capricharam tanto na construção de suas igrejas, na aquisição de suas imagens, de seus Santos, na organização de suas Irmandades com Juiz, Provedor, cargos de direção, vestes solenes, tochas, alfaias iguais às demais Irmandades, suas festas, suas procissões e demais solenidades. É um aspecto de alcance sociológico importantíssimo, e uma contribuição da Igreja para o entendimento entre as classes sociais, pois pouco a pouco passaram as pessoas de cor a serem aceitas também em Irmandades, antes reservadas somente aos brancos. Foi uma contribuição justa, corajosa e ao mesmo tempo prudente, conseguindo de modo pacífico, o que mais tarde seria pleiteado em lutas sangrentas no campo civil;

3.1.5 e, finalmente, á recitação do oficio: oração em comum feita por monges, cônegos e membros de outras comunidades. Requer, em geral um tipo especial de bancos e assentos, as "estalas", o "Côro".
O projetista, o arquiteto deve providenciar para que haja espaço suficiente para a realização desses atos; para que as cerimônias possam desenvolver-se sem embaraço por todos que nelas participam direta ou indiretamente (chegada, saída, movimento em redor do altar, da pia batismal), para que recebam o merecido destaque os locais ou peças litúrgicas (altar, ambão, batistério, presbitério, coral) e para que o ambiente todo tenha um caráter próprio, sacro, propicio à função religiosa, à meditação, o recolhimento.
Influirá muito em tudo isso a idéia religiosa específica, mesmo dentro do Cristianismo.

3.2.1 É muito diferente, se se realiza uma Missa ou outra forma de Ceia Sagrada, o que requer um altar; ou se há somente uma reunião com pregação, canto e oração, sem altar.

3.2.2 Exerce enorme influência sobre arquiteto e decorador a concepção católica da Eucaristia: presença continuada de Deus no pão consagrado, mesmo terminada a Missa. Com ela atravessa a história da Arte Sacra o sacrário: desde a "pomba Eucarística", suspensa do baldaquino do altar (ver no Museu de Salzburg e noutros), pelo "Sakramentshaeuschen" ("Casa do Sacramento"); um sacrário embutido na parede, ou colocado numa coluna isolada, uma stela; até a posição central no altar pré-conciliar, fazendo dele mais um trono do Santíssimo, grandioso, volumoso com seu retábulo, do que – o que é sua função própria - o local do sacrifício da missa; e até a posição atual da liturgia: altar como centro de atenção; sacrário separado dele, mas expressando dignamente a fé na presença eucarística.

3.2.3 Há muitas maneiras de demonstrar o respeito: levantar-se, inclinar-se, tirar o chapéu e outros procedimentos. Mas praticamente influem as tradições católicas e protestantes no desenho dos bancos de igreja: para católicos são para sentar e ajoelhar; para protestantes só para sentar. (Para judeus só para sentar, mas dispondo de uma espaçosa gaveta de guardar livros, chale e outros objetos). '

3.2.4 Não a doutrina, mas certas idéias mudaram entre os católicos a respeito da colocação da pia batismal. Em tempos passados, desde as mais remotas épocas, pensaram assim: as crianças, ou melhor, as pessoas, a serem batizadas, crianças ou adultos, são pagãos, e por isso não entram na igreja. Para entrar, são primeiro batizados. Por isso foi o batistério colocado ou fora da igreja (Latrão em Roma, por exemplo), fora do local do culto (casa de Dura-Europos, séc. lll), ou na igreja, mas logo à entrada.
Hoje há preocupação de fazer participar a assembléia dos fiéis em ato tão importante para a vida cristã; e, por isso, é colocada a pia batismal dentro da nave, na proximidade do altar, á vista de todos. A preocupação pastoral venceu o espírito de "volta ás fontes", geralmente seguido na reforma litúrgica do Concilio Vaticano II. Com isso aproximam-se a prática católica e protestante sobre o local da pia batismal.
Os batistas têm de cuidar ainda de outra forma deste assunto. Pois para eles é obrigatório o batismo por submersão (os católicos são livres para usar submersão, infusão ou aspersão). Isso requer uma piscina, com degraus para descer e subir é uma espécie de “dique seco" para o ministro que acompanha o batizando, descendo e subindo, sem se molhar.

3.2.5 Grande influência sobre arquitetura e decoração teve o culto dos Santos da Igreja católica e, parcialmente, da Igreja anglicana. Já falamos das "memórias" das Catacumbas, dos altares das Basílicas. Segue-se historicamente o desenvolvimento do retábulo com mais de uma imagem ou pintura, os altares laterais, até em capelas próprias, ás vezes uma série destas, em honra de outros Santos; fora da colocação de imagens e pinturas em outras partes nas paredes, na fachada, no adro.
Continua na Igreja católica o culto dos Santos. Nele o Concilio Vaticano II nada mudou. Mas sugere-se maior simplicidade, evitando um número excessivo de imagens, o que fica até anti-estético, coisa que o barroco colonial brasileiro com seu profundo senso de proporção soube evitar, apesar de toda a riqueza de expressão desenvolvida.
E, o que é mais importante: insiste-se na reforma atual que a disposição da cruz, do Cristo crucificado, de outras imagens de Cristo, de Nossa Senhora, dos outros Santos, exprimam visualmente o que sempre foi assunto de fé: Deus acima de tudo; Cristo antes de tudo.

4. Outro aspecto a ser considerado no exame do binômio: liturgia - arquitetura é o elemento humano, tanto do arquiteto criador, como do utilitário, do freqüentador da igreja.
Pois, se é verdade que o culto consiste numa homenagem prestada pelo homem, sozinho ou em grupo, a Deus - também é verdade que este homem que presta a homenagem, não é o mesmo de uma época para outra.

4.1 Deixando de lado outros sistemas religiosos, e ficando só no Cristianismo, vemos nos templos de diferentes épocas marcas diversas, deixadas por gerações diferentes.
Fonte: Separata de Liturgia e Vida – 1976
Por Mons. Guilherme Schubert
Presidente da Comissão Arquidiocesana de Arte Sacra do Rio de Janeiro